| O Pequeno Príncipe e a Aia |
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Recebi, pelo correio, o Relatório de Atividades 2007 do Hospital Pequeno Príncipe. Quem não é de Curitiba ou mesmo do Paraná, ou quem nunca tenha precisado (graças a Deus!) dos serviços de um hospital infantil, pode não estar familiarizado com a instituição e, por isso, explicarei, a seguir, em breves linhas, suas atividades. O Hospital Pequeno Príncipe existe há mais de 80 anos e atende crianças e adolescentes de todo o Paraná e também de todo o país – já que se transformou, ao longo desses anos, em referência nacional na área de pediatria diagnóstica, clínica e cirúrgica. Seus serviços vão de cardiologia a cirurgia cardíaca; todos os tipos de cirurgias pediátricas; ortopedia; otorrinolaringologia; transplantes e... violência contra crianças. Foi justamente esse último item que me motivou a escrever estas linhas. De acordo com o relatório, o Pequeno Príncipe atendeu 305 crianças vítimas de violência, em 2007. Dessas crianças, cerca de 70% tinham entre 1 e 7 anos, e 66% eram meninas e 34%, meninos. O que mais choca a todos é que as crianças foram vitimadas, em 53% dos casos atendidos, dentro de suas próprias casas. Ainda de acordo com o documento, em mais de 50% dos casos, o agressor é um familiar próximo à criança. Os casos de violência contra a criança que chegam aos hospitais geralmente são muito graves, com as vítimas entrando pelo pronto-socorro, feridas, inconscientes e, muitas vezes, à beira da morte. Isso nos faz pensar que essas crianças, fora os casos de transferência de outros hospitais da cidade, são vítimas oriundas da área primária de alcance do atendimento, próximas ao hospital. Não é demais lembrar que, no caso específico de violência doméstica contra crianças, a grande maioria dos crimes nunca é reportada, ao contrário, é encoberta pelas famílias das vítimas. Todos sabem que o problema da violência contra crianças no Brasil é alarmante. Mulheres que asfixiam seus bebês em sacos plásticos e os atiram em lagoas pútridas; garotas que escondem recém-nascidos em sacolas dentro do guarda roupa; outras que parem dentro do vaso sanitário e se livram do ‘excremento’ dando descarga; pais que queimam seus filhos vivos; outros que espancam suas crianças com a mesma freqüência que sorvem seus goles de cachaça ou cheiram suas carreiras de pó; homens e mulheres viciados que mandam seus filhos para a rua a fim de conseguir o dinheiro para sustentar seus vícios, enfim... De casos como esses, poderíamos encher páginas e páginas de tristíssimos exemplos da capacidade humana para o mal. A mistura explosiva de falta de planejamento familiar, educação e empregos, além de drogas, bebida e de todo tipo de banditismo, vitima crianças de todas as idades e classes sociais – o recente caso da menina Isabela está aí para não nos deixar esquecer o show de horrores em que se transformou o nosso cotidiano. Entretanto, não se precisa ir muito longe... Se você que está agora lendo estas linhas, horrorizado, se esforçar, só um pouquinho, tenho certeza, se lembrará de algum caso próximo de criança mal-tratada, negligenciada, abusada. Talvez o filho da empregada, do caseiro, do funcionário da sua empresa, do vizinho, de um primo distante ou próximo, quem sabe? Pensar que, um dia, as crianças que sobreviverem a seus pais, mães e familiares, serão elas mesmas pais e mães, por opção ou fatalidade, me perturba o sono. Afinal, como se pode pensar em sociedade, em civilização, com tantos desajustados/ desequilibrados andando por aí? Para as pessoas que merecem receber o título de ‘pai’ e ‘mãe’ neste mundo cão em que vivemos, nunca é demais pedir que não permitam que a freqüência desses horrores os deixe dormentes e insensíveis. Se me perguntarem se tenho uma sugestão para mudar, pouco que seja, esse quadro tão perverso, responderei o óbvio: mais denúncias anônimas, mais cadeia para os agressores, tratamento adequado para as vítimas e mais escola e oportunidades para as crianças. Enfim, nada muito criativo, afinal, não precisamos de criatividade e, sim, de atitude, e firme. Nada de justificar o comportamento criminoso com discursos psico-sociológicos vazios, que muitas vezes nos pegamos desprevenidos a usar: “Ah, coitado... Também, olha as condições em que vive essa criatura...”. Nada disso. Temos que ser implacáveis. Cada vez que justificamos um comportamento criminoso nos esquecemos que estamos alimentando a incapacidade de nossas instituições, a ineficiência de nossos governos e, em última instância, sendo coniventes com traficantes e pederastas. Isso tudo fez lembrar-me de um conto pouco conhecido de Eça de Queirós intitulado, A Aia. No conto, ficamos sabendo da história de um casal real que tem seu filho amamentado por uma empregada. O rei morre em batalha e um irmão bastardo e revoltado, retorna ao palácio após anos de exílio para tomar de volta o que acha que é seu por direito. O pequeno príncipe sonhava em seu berço de marfim, enquanto o filho da aia dormia, a seu lado, em berço modesto. A moça, que se sentia mãe das duas crianças, ao perceber que invasores se aproximavam do palácio e que o principezinho estava correndo perigo, tratou de, rapidamente, trocar as crianças de lugar. O irmão bastardo do rei, então, num gesto furioso, arrancou a criança do berço de marfim e a levou consigo como moeda de barganha. Minutos depois, fiéis ao rei morto vieram com a notícia de que, na batalha, o bastardo havia morrido com o pequeno príncipe em seus braços. A rainha, desesperada, invadiu o quarto das crianças e correu para ver o bercinho de marfim vazio. Qual não foi sua surpresa ao encontrar o lindo sorriso de seu pequeno que despertava no berço modesto. A rainha, emocionada e agradecida, conduziu a aia à sala do tesouro real e ofereceu a ela todas as riquezas que podia. A mãe da criança morta alcançou um punhal cravejado de esmeraldas disse: ‘Salvei meu príncipe, e agora... vou dar de mamar ao meu filho.’ E cravou o punhal no coração. Acho que é isso. Devemos ter sempre em mente que imagem de mãe carregamos em nossos corações: a que dá a vida por um filho ou a que tenta tirá-la dele.
Patrícia Fanaya |

